Bem-Vindos a "O Bar do Alcides"!

* O Bar do Alcides não faz favores a ninguém!
* É apolítico e imparcial!
* Todos os portugueses são vítimas da MAÇONARIA, que continua destruindo a nossa Nação!

terça-feira, 5 de maio de 2009

Conversas no Bar do Alcides.

Um bar comum, desses de esquina. Atrás do balcão, Alcides, dono do estabelecimento, cuida dos afazeres do dia-a-dia. De repente, entra um cliente: Márcio. Senta-se no balcão e pede um café. Enquanto espera ser servido, retira um maço de cigarro e um isqueiro do bolso. Com a habilidade de um fumante de anos, retira com charme o cigarro de dentro do maço. Leva o cigarro à boca, e acende o zippo com rapidez. Dá uma longa tragada. Vira-se para Alcides que traz o café expresso.
- Sabe, esse é o meu último cigarro.
- Que marca você fuma? Nós devemos ter aqui...
- Não é isso. Esse é o último cigarro que eu fumo. Resolvi parar.
- Açucar ou adoçante?
- Adoçante. (TOM) Sabe, agora quero cuidar mais de mim. Levar uma vida mais saudável... (TOM) O senhor fuma?
- Não.
- Eu fumava dois maços por dia.
- É bastante.
- Mas depois desse cigarro... nunca mais! - diz isso e dá uma longa tragada.
Mais duas pessoas entram no bar. Um casal: Natália e Marcelo. Eles sentam-se em uma das mesas. Marcelo vira-se na direção do balcão.
- Por favor, uma cerveja.
- A essa hora? - pergunta Natália, que está sentada com ele.
- Não existe hora pra tomar cerveja. - responde como se fosse uma máxima indiscutível.
- O que você tá pensando?
- Estou preocupado, é lógico. Afinal, o resultado desse exame pode mudar a minha vida...
- Eu sei muito bem o que você está passando... Há quanto tempo a gente se conhece? Três anos?
- Talvez quatro...
- Pois eu convivo com essa doença há mais tempo do que a gente se conhece... Se lembra?
- É... faz tempo!!!
- E você foi o culpado do meu namoro!
- Eu só apresentei... vocês tinham muito a ver.
- E muitas diferenças também... Às vezes não sei como essa relação ainda resiste a tanto problema...
- É, gostar é bom... mas é foda. Principalmente... bem... se a gente tem que conviver com uma coisa como essa... Deus me livre pensar que eu posso... não sei se vou ter coragem de ir até lá...
Alcides chega com a cerveja e dois copos, serve os dois enquanto a conversa continua. A mulher prossegue:
- Pára de pensar no pior. Se for verdade? Sua vida vai acabar por causa disso? Olha pra mim. Eu não estou bem?
- Não estou pensando só em mim. Você sabe muito bem. Quando a gente tem alguém...
- Essa pessoa pode ajudar muito. Quando agente gosta... essas coisas não fazem tanta diferença... E não dizem que os opostos se atraem? Se todo mundo fosse igual, talvez não tivesse graça.
- Você dizendo isso parece que é uma coisa à toa.
- Eu já passei por muita barra, Marcelo. Você acha que eu já não tentei me separar? Às vezes a gente pensa que o melhor é deixar a outra pessoa levar a vida dela. Tentar encontrar alguém mais parecido... No fundo, quando a gente gosta, acaba tendo mais medo de passar a doença pro outro do que de morrer... Mas, por outro lado, por que é que eu vou sofrer com isso também? Já não basta ser soro positivo, ter que tomar aquele monte de remédios, ainda vou perder uma pessoa que gosta de mim? É importante ter alguém do nosso lado, alguém que goste da gente...
- É... mas se der positivo, não sei se vai encarar essa barra.
- Por que você acha isso? Afinal, ele fez questão de ir com a gente buscar o seu exame.
- Isso porque ele tem certeza de que vai dar negativo. Ele acha que isso nunca iria acontecer com a gente. É só um garoto. Quantas pessoas ele deve ter conhecido antes de mim? Já eu...
Alcides volta para o balcão. Márcio, o futuro ex-fumante, volta a falar, como se o assunto ainda não tivesse se encerrado.
- Você acredita que eu estou há cinco anos com alguém que não fuma? Dá pra acreditar?
- As pessoas são diferentes, minha ex-mulher, por exemplo, detestava futebol. Eu, já não perco um jogo na TV.
- Isso não incomoda tanto quanto fumar perto de um não fumante.
- Você é que pensa. E quando ela queria assistir o Sílvio Santos e eu queria assistir o futebol?
- Bastava comprar outra TV.
- Eu acabei fazendo isso.
- E mesmo assim vocês se separaram?
- Não pela TV. É que as coisas não duram pra sempre. Eu pelo menos penso assim.
- É... - olha longamente para o cigarro, que já está no fim - não duram pra sempre...
Dizendo isso, Márcio dá a última tragada e apaga o cigarro no cinzeiro. Tudo demoradamente, como um ritual. Fala para Alcides:
- Aqui está a grana do café. Guarda o troco.
Márcio deixa o bar. Marcelo, que estava na mesa, se levanta.
- Vamos indo? Acho que ele já deve estar lá.
- Tudo bem. O que tem de ser, será. - volta-se para Alcides - Você pode fechar a nossa conta?
A câmera descreve um travelling circular no bar para chegar até Alcides no balcão. No fim do movimento, já estamos em outro dia. Alcides prepara uma conta e dá para uma outra pessoa. Ela paga e sai. Entram duas mulheres e sentam-se em uma das mesas. São Clara e Melina.
- Não sei se eu devia...
- Vamos lá. Relaxar um pouco. Seu horário de almoço não vai até às três?
- Você tem razão.
- Como é mesmo o seu nome?
- Clara.
- Eu me chamo Melina. (TOM) Quer beber alguma coisa? Uma cerveja?
- Um café. Não bebo nada alcoólico.
- Dois cafés! - pede para Alcides.
- Aceita um cigarro?
- Obrigado - recusa.
- Se incomoda se eu fumar?
- Não.
Acende o cigarro. Dá uma tragada. A fumaça vai sobre Clara, que tosse. Com a mão ela tenta “espantar” a fumaça.
- Você não gosta mesmo de cigarro.
- Isso faz um mal. Pelo menos esse vício eu não tenho.
- Tantas coisas fazem mal. Algumas mais do que o cigarro.
- Sei muito bem do que está falando.
- Mas, você estava dizendo que era casada... O exame é do seu marido?
- Não, é meu mesmo. Eles só entregam os exames pra própria pessoa.
- Entendo... Vai ver é por isso que chamam de Centro de Testagem Anônima... mas, como vocês são casados, eu imaginei que talvez...
- Você é casada?
- Não de papel passado. Mas já moro com alguém faz mais de dois anos...
- E qual é o nome dele?
- Natália.
- O nome dele é Natália?
- Não é ele, é ela.
- Não...
Clara tenta disfarçar o espanto.
- E você é...
- Não, não sou. Ela é. Mas também faço exame de vez em quando. É bom saber...
- Eu obrigo o Paulo a fazer também. De seis em seis meses eu trago ele aqui, no hospital. Mas, no meu caso... é mais difícil...
- Mais difícil por que?
- Ele é muito teimoso... nós brigamos muito.
- Eu também brigo muito com a Natália... sou muito ciumenta... Mas eu tento me controlar...
- Não é só ciúmes... Eu já falei pra ele milhões de vezes que deveria se cuidar. Que é perigoso. Que não é certo. Mas, ele não me ouve.
- Ele não se cuida? Não usa camisinha?
Alcides traz dois expressos.
- Obrigada. - Clara agradece o café e dirigi-se para Melina. - É, ele não usa!
- Meu Deus... quando vocês se casaram ele já sabia que você era soro positivo?
- Sabia sim.
- É... A gente só soube depois. Foi uma barra. Confesso que eu pensei em largar tudo. Sabe? - ”Eu não quero isso pra mim” - Eu pensava.
- Eu só pensava que tudo ia acabar. Que nada mais fazia sentido. Quando apareceu o Paulo eu não sabia o que fazer. Demorei um tempo pra criar coragem e dizer tudo pra ele. E quando eu contei, sabe o que ele fez?
- Não...
- Me pediu em casamento! Você acredita?
- Não...
- Eu achava que ele iria desistir. Que não ia me procurar mais. Nunca pensei que fosse ter um relacionamento de novo. Mas pra você é mais fácil. Afinal, você não é soro positivo, como eu e sua... amiga.
- Por esse lado, é verdade... Mas e o medo? Eu fiquei muito encanada na época. Fiz todos os exames. Achava que ia morrer. E, no fundo, eu acho que colocava a culpa na Natália. Como se alguém tivesse culpa... Hoje já está tudo bem. Sei que quero ficar do lado dela. E acho que isso ajuda a superar. Imagine estar sozinho e ter que enfrentar as crises que batem, os momentos de desespero, uma rotina repleta de remédios com horários rígidos... Sou quase sempre eu que lembro a Natália dos remédios. Ela é completamente distraída...
- O meu problema é que o Paulo não se protege. Ele se recusa a usar camisinha.
- Tem homem que pensa que não precisa...
- ... se proteger. Que nunca vai acontecer com ele. O Paulo acha que isso é uma prova de amor.
- Não usar camisinha?
- É, diz que Deus protege a gente! (TOM) Agora, me diz uma coisa: se ele não quer usar, o que eu vou fazer? Abandonar ele? Eu não posso fazer isso. Eu gosto dele.
- Fica calma... ser casado não é fácil.
- Sei que é difícil... Mas, eu gosto de estar casada. De ter alguém que se preocupa comigo... Ele ajuda minha vida a ter sentido... por isso mesmo, não quero perder ele de jeito nenhum.
A câmera sai das mulheres, em travelling e vai até o balcão. No movimento temos outra mudança de tempo (elipse). Alcides conversa com um funcionário.
- Zé, a vida é mesmo engraçada... Você sabe por que eu me separei da minha mulher? (TOM) Porque ela sempre reclamava que eu deixava a toalha molhada em cima da cama. Ela achava aquilo uma falta de respeito. Uma toalha na cama... molhada. A gente não sabia lidar de um problema tão bobo como uma toalha... Eu ouço a conversa das pessoas que vem aqui... desse povo que passa saindo do hospital aqui perto... lidando com problemas bem mais complicados... Aquele casal que vem sempre aqui... E eles parecem sempre tão bem...
- Seu Alcides? - diz o Zé, com um olhar distante de quem não prestou atenção em uma palavra do que foi dito.
- O que foi, Zé?
- Eu limpo primeiro o banheiro dos homens ou o das mulheres?
- Tanto faz, homem! Tanto faz!
A câmera descreve um travelling lateral no balcão até chegar em Márcio, sentado. É o mesmo que fumou seu último cigarro no bar. Ele tem um papel em suas mãos. Olha para ele fixamente. Repetidas vezes. Alcides chega com uma cerveja, que serve para Márcio.
- O que você tanto olha nesse papel, Márcio?
- Meu exame, Alcides. Meu exame.
- As coisas não estão boas?
- Boas? ... Eu só não consigo... não consigo acreditar... Esse exame está dizendo que a minha carga viral está negativa. Sabe o que é isso?
- Na verdade, eu não faço a mínima idéia...
- Significa que a quantidade de vírus no meu sangue agora é tão pequena que o teste não consegue detectar!
- Mas isso é excelente! Quer dizer que você não tem mais o vírus, que você tá curado?!
- Não Alcides, ainda não existe cura pra AIDS. Mas, agora, a gente tem uma arma pra enfrentar a doença. Esse monte de remédios que eu tô tomando, sabe... o senhor já deve ter ouvido falar. o tal do coquetel...
- Bom ainda não é a cura mas já é bom, certo?
- (NÃO ACREDITANDO MUITO AINDA) Excelente... é excelente,... sabe, Alcides, há cinco anos atrás eu achava que ia morrer. Preparei testamento, larguei o meu emprego, fui viajar, fazer tudo o que eu nunca tinha feito antes... Gastei quase tudo o que tinha... E aí... aconteceu o que eu menos esperava: eu não morri. Não morri e parecia, cada vez mais, que eu não ia morrer. Você sabe o que é ficar desesperado porque você não morre? Você acredita nisso?
- Deus me livre, vira essa boca pra lá!
- Eu não estava preparado pra viver! Demorou um tempo pra me acostumar com idéia de que eu ia continuar vivo. Aí, vieram os novos remédios... o coquetel... e agora, esse exame... Não dá pra acreditar! (TOM) Por favor, Alcides, pegue um copo pra você também e vamos comemorar juntos!
Os dois levantam os copos e fazem um brinde. Alcides fala:
- A nova vida!
- A minha nova vida!
Brindam.
- Mas agora você vai ter que procurar um emprego novo!
- Seu Alcides, a partir de hoje, pra mim nada mais é problema, nada...
A câmera vai se afastando lentamente do balcão, mostra a rua do lado de fora. Pessoas que passam, carros... Depois de um tempo parada, a câmera reinicia o movimento. Ouvimos trovoadas e ruídos de chuva. Um casal entra entra ensopado da chuva. É Clara e seu marido, Paulo. Eles se sentam e pedem dois cafés.
- Eu não disse? O exame deu negativo. A gente não tem com o que se preocupar.
- Paulo, não deu nada agora. Nada impede que dê daqui há seis meses. A gente não pode continuar as coisas desse jeito.
- Não vai acontecer nada, Clara.
- Como não vai acontecer nada, Paulo?
Seu Alcides traz os cafés. Eles esperam ele sair para continuar a conversa.
- Se liga, Paulo! Eu sou soro-positivo, já esqueceu disso?
- Mas eu te amo!
- Se você me ama devia usar camisinha. Como você acha que eu me sinto sabendo que posso te infectar? Você acha que eu vivo bem com isso? Isso é uma merda. A sua teimosia me cansa.
- Calma. A gente tá junto há cinco anos e até agora todos os exames que eu fiz deram negativos. E eu até acho bobagem fazer. Só faço por que você insiste.
- Cinco anos, Paulo. Esse é o problema! Eu não agüento mais ficar nessa expectativa. Seis meses esperando o próximo exame pra saber se você se infectou ou não!
- Clara, o exame deu negativo. Pra que esse nervosismo?
- Paulo, pensa um pouco, se eu começar a desenvolver a doença, quem vai cuidar de mim, quem vai cuidar das crianças, Paulo?
- Eu!
- Então! E se você se infectar?!
- Eu não vou me infectar nunca, Clara. Eu te amo e você me ama. Isso é tudo o que importa!
- Paulo, você sabia que eu prefiro morrer a te infectar? Você sabia disso?
- E você sabia que eu prefiro me infectar a te perder?
Clara olha longamente para Paulo.
- Eu sempre ouvi dizer que paixão é um estado de imbecilidade temporária, mas no seu caso, depois de 5 anos, a paixão, com certeza, diminuiu, mas a imbecilidade... (PAUSA)
Paulo se orgulha da sua “imbecilidade permanente”.
-Vai dar negativo até quando, Paulo? Até quando?
Nervosa e descontrolada, Clara levanta-se sem tomar seu café e deixa o bar pisando duro. Paulo se levanta.
- Clara! Clara! (OLHA PARA AS XÍCARAS DE CAFÉ) Nem bebeu o café...
A câmera sai de Paulo, em mais um travelling circular. Mostra a rua e quando volta, o bar está cheio. É noite. Toca uma música tecno bem alto. A rua está cheia de carros. Muito movimento. Dois homens entram no bar: Marcelo e seu namorado, Carlos. Os dois estão ensopados de tanto que dançaram em alguma casa noturna das redondezas. Marcelo pede uma cerveja. Os dois parecem não estar muito bem um com o outro. Existe um certo clima tenso. Marcelo serve-se de cerveja enquanto fala:
- Por que você quis ir embora tão cedo? Não estava se divertindo?
- Você parece que estava mais do que eu.
- O que você tá querendo dizer?
- Você sabe muito bem.
- Não sei.
- Você não parava de olhar pra aquele cara!
- Você bebeu demais.
- Eu posso beber o quanto eu quiser! Isso não vai me fazer mal.
- Isso é alguma indireta?
- Indireta nenhuma. Você estava olhando pro cara ou não?
- Você nunca foi ciumento assim. Sabe o que eu acho? Que o problema não é esse. Você mudou muito desde que eu descobri que tenho o vírus.
- Dá pra você falar mais baixo? Quer que todo mundo fique sabendo?
- Foda-se todo mundo. Eu sabia que o problema era esse. Estou cansado dessas suas irritações por motivo nenhum. Eu quero continuar vivendo a minha vida o melhor que eu puder. E você não vai estragar isso. Já basta o que eu passo. Já basta lembrar que eu tenho essa maldita doença toda hora que eu tenho que tomar um remédio! Se você não agüenta isso, procura outra pessoa.
- Não quis dizer isso... mas não sei se quero essa vida pra mim... Eu ainda sou muito novo...
- Eu também acho. Faz o seguinte, viva a sua vida e eu vivo a minha.
- O que você tá querendo dizer?
- Você entendeu. Pensa que ninguém mais vai me querer porque eu sou positivo? Eu vou voltar lá, continuar a dançar, a me divertir o máximo que eu puder. Não vou deixar você atrapalhar isso.
Vai saindo, o outro segura ele pelo braço.
- É aquele cara, não é?
- Não seja ridículo!
- As coisas não precisam terminar assim.
- Você é que terminou tudo, não percebeu ainda?
Se desvencilha e sai, deixando o outro sozinho. Carlos retruca:
- Eu já devia ter saído dessa faz tempo... Nunca mais.
A câmera sai em outro travelling. O Som sobe novamente. Fade. A música continua, apesar do fade.
Temos agora uma série de imagens de lugares diferentes. Casais no parque, nas ruas, etc. Sobre as imagens aparecem letreiros: “Seis meses depois”.
Melina e Natália passeam, olhando vitrines de lojas.
Paulo e Clara, que haviam brigado em outra cena, aparecem no posto médico, onde vão pegar o resultado de mais um exame de Paulo. Clara olha o resultado e começa a chorar nos ombros de Paulo que mantém uma cara de estupefato. De repente, Clara começa a socar Paulo, como se tivesse raiva dele. Ele deixa cair o exame. O detalhe da câmera revela o resultado: positivo.
Voltamos para o bar. Alcides está no balcão. Fala com um de seus funcionários.
- Zé, eu já te contei porque me separei da minha mulher?
- Seu Alcides, eu coloco as lata de cerveja por baixo ou por cima das lata de refrigerante?
- Põe por baixo, Zé. Por baixo - balança a cabeça como quem diz: “Esse cara não tem mesmo jeito.”
Chegam no bar Melina e Natália. Elas carregam algumas sacolas de compras. Natália parece cansada. Melina percebe e pergunta:
- O que você tem, Natália? Está bem?
- Um pouco cansada, talvez...
- A gente não devia ter andado tanto... Tá meio frio. Você sabe que não pode facilitar com esse tempo.
- Às vezes, eu acho que você me trata como um bebê.
- Se você não agisse como criança facilitaria as coisas.
- Você vai ver, o resultado do próximo exame... vai dar tudo certo. O meu CD-4 tinha regredido bastante. (ESPIRRA)
- Vou marcar seu médico pra hoje mesmo... (PEGA O CELULAR)
- Estou cansada de médicos, de remédios... Às vezes eu penso que seria mais fácil...
- Nem se atreva a dizer uma palavra, Natália. Pra que eu estou com você?
- Pra ser minha enfermeira.
- Eu estou com você porque eu gosto de você. Porque acho que a nossa vida vale a pena, eu e você, juntas. E você vem com esse papo... Você quer que eu dê o fora, como fez o Carlos... aquele idiota... (AMEAÇA CHORAR. ENXUGA UMA LÁGRIMA) Você não tem o direito de ficar deprimida hoje. Hoje não! Gastamos uma fortuna em roupas!
Natália, tenta desanuviar o ambiente.
- Tenho motivos sim. Você acabou comprando aquele vestido horroroso... - Volta-se para Alcides e pede - Seu Alcides, vê dois sucos de laranja pra gente!
Melina olha pra Natália e dão um beijo. Se olham por um tempo e, de repente, começam a rir. Natália engata outro papo:
- Você leu no jornal? Os laboratórios tão pesquisando uma nova geração de inibidores de protease.
- Li sim. Parece que agora vão lançar um tal de ABT-378 que é dez vezes mais potente que o Ritonavir!
- Mas o bom mesmo vai ser quando eles lançarem as combinações dos medicamentos do coquetel.
- Já lançaram o Combivir, que tem uma cápsula de AZT e do 3TC...
- Imagina só, ter que tomar um só comprimido o dia todo já com todos os medicamentos...
- Dois inibidores da transcriptase e um inibidor da protease ou três inibidores da transcriptase...
O Zé chega na mesa trazendo os sucos. Não resiste à pergunta:
- Desculpa eu me intrometer mas... - coça a cabeça - as Donas sabem o que eu devo tomar pra prisão de ventre... não é pramim não, é pra minha tia, coitada...
Melina e Natália seguram o riso. Melina tenta manter a pose e pergunta:
- Como assim?
- As Donas não são médicas? Vivem falando de remédio eu achei que... não custava perguntar... uma consulta tá custando uma fortuna, sabe?
As duas continuam tentando conter o riso. Melina prossegue.
- Olha, Zé... prisão de ventre não é a nossa especialidade...
- As moças me desculpa, viu? Eu só pensei que...
- Zé, você tá incomodando as moças? - Grita Alcides percebendo que o Zé demora demais para voltar ao balcão.
- Tô indo, Seu Alcides! Tô indo!
Melina e Natália começam a rir. A camera descreve novo Travelling e chega em Carlos sentado no balcão, é outro dia. Ele está pensativo. Alcides chega perto e puxa conversa.
- Que cara é essa, rapaz? Parece que saiu de um velório!
- É... quase... terminei um namoro super legal por uma bobagem e... a pessoa não quer mais voltar comigo. No fundo ela tem razão. Eu fui mesmo um idiota.
- É verdade.
- Você me acha um idiota?
- Não, às vezes a gente acaba um casamento por cada coisa... Mas, as coisas não duram pra sempre. Eu, pelo menos, penso assim.
- Eu tenho certeza de que eu posso me envolver com uma pessoa diferente de mim. Não sei se você entende... Não importa...
Nesse instante, Márcio, o ex-fumante entra no bar.
- E aí, Alcides? Como vai?
- Tudo bem, e você?
- Tudo indo. Me separei depois de quase seis anos de casado, mas está tudo bem. Vida nova. O importante é que peguei o resultado de outro exame e está tudo bem. Como eu digo sempre, perto de um exame desse, nenhum problema é problema!
Márcio senta-se perto de Carlos. Somente um banco separa os dois. Alcides pergunta para Márcio:
- Vai almoçar hoje?
- Traz o prato do dia, Alcides!
- É pra já. Zééé... sai um do dia!
Márcio e Carlos se olham, rapidamente. Carlos tira um maço de cigarro do bolso. Procura o isqueiro. Não acha. Vira-se para Márcio.
- Você tem fogo?
- Parei de fumar.
- Eu já tentei várias vezes, mas... acho que não tenho força de vontade...
A câmera se afasta. Os dois continuam conversando, mas não ouvimos o que eles falam.
Alcides comenta com o seu funcionário.
- Tá vendo, Zé. Você sempre com essa cara de quem comeu e não gostou. Olha, aquele alí tinha muito mais motivos pra ficar mais triste que você. Mas, ele não se deixa abalar. Está sempre pra cima. Mais do que ninguém, ele sabe o valor que a vida tem.
Zé, pensa um pouco e finalmente diz:
- X-salada vai hamburguer eee... mais o que mesmo, Seu Alcides?
Ainda vemos Márcio que troca de banco para sentar mais perto de Carlos. A conversa dos dois parece que vai longe.