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domingo, 25 de outubro de 2009

Expresso de 25.10.09: Director do "Público": "Sócrates tentou impedir artigos sobre a licenciatura".



Já há conclusões do inquérito ao caso do e-mail divulgado pelo DN?
Não sei de nada. Sou uma das oito pessoas que recebeu o email e como tal fui ouvida.

Acha importante ver este assunto esclarecido antes de sair?
Não faço questão disso. Confio no inquérito que está a ser conduzido pelo departamento jurídico da Sonae.com.

E continuam a investigar o caso das escutas a Belém?
É um tema que se mantém na agenda. Há muito por clarificar e sabe-se muito mais do que se sabia na altura, nomeadamente sobre o papel do assessor Rui Paulo Figueiredo.

Mantém a convicção de que houve uma vigilância...
Não mantenho convicção nenhuma! O que foi escrito no "Público" é que na Casa Civil do Presidente havia suspeitas de vigilância. Dito por mais do que uma fonte. Há ainda coisas que não estão esclarecidas e que não consegui compreender com a intervenção do Presidente. Mantenho vontade de saber mais.

Reconhece erros na forma como a informação foi produzida?
Dizer que tudo foi escrito sem uma falha seria, no mínimo, audacioso. Alguns dos textos deveriam ter sido feitos com mais cuidado e com mais tempo.

O Provedor do "Público" fala de uma agenda política escondida...
Fala nisso num texto. No seguinte, não. Diz que o "Público" poderá ter ficado refém de fontes. O que é uma coisa que, por vezes, acontece, mesmo involuntariamente. O Provedor reconheceu sempre que o primeiro texto devia ter saído. Só no segundo reconhece erros...

... grosseiros, diz ele
Erros de mal-entendidos, de late-night. É uma notícia que tem pontos fracos.

Não sente necessidade de reconhecer que "o 'Público' errou"?
Já foram feitos vários editoriais e dito o essencial. Houve um erro logo assumido: uma tentativa de contacto com Rui Paulo Figueiredo para o local errado. Houve ainda um mal entendido sobre o trabalho feito pelo correspondente da Madeira, que confirmou a presença do assessor na comitiva presidencial, quando não era esse o ponto. Isso estava confirmado, importava verificar a estranheza do seu comportamento.

O vosso livro de estilo exige que se seja "tão rigoroso quanto possível"!
Com distância, acho que se podia ter sido mais rigoroso no segundo texto. Mas as circunstâncias em que acabou por ser finalizado - somos um jornal diário - a impossibilidade de recolher uma resposta do Presidente...

Mas voltando à agenda política.
Não há agenda política nenhuma!

Nem sequer é uma questão nova...
É completamente nova quando é assumida por jornalistas!

Mas a ideia de que é cavaquista...
Nunca ouvi isso, confesso.

Como contra-ponto à má relação com o Governo e o primeiro-ministro...
Peço desculpa: a má relação é do primeiro-ministro em relação a mim. Não de mim para ele. Não tenho uma má relação pessoal com ninguém. Não tenho razão para isso.

Essa má relação começou quando?
Não consigo situar, mas é anterior à sua chegada a primeiro-ministro. Enquanto ministro do Ambiente almocei com ele algumas vezes para esclarecer assuntos que saíam no jornal e que ele considerava serem campanhas contra ele. Por exemplo, uma das queixas dizia respeito a um cartoon que foi publicado sobre a co-incineração. Ele não tinha sequer reparado que era uma edição especial onde só existiam ilustrações dos cartoonistas! O cartoon fora encomendado de véspera e acompanhava um texto que até, se quiser, era favorável ao Governo. Mas ele estava convencido que era uma maldade propositada contra ele. Conhecem a personalidade do primeiro-ministro e sabem que estas coisas não passam facilmente. As coisas tornaram-se muito complicadas quando ele quis que não se publicasse a investigação sobre a licenciatura na Universidade Independente.

Acha ilegítimo que o primeiro-ministro tente impedir a publicação de uma notícia?
Não digo isso. É normal que os agentes do poder político protestem sobre o que foi publicado. É muito mais raro que tentem impedir a sua publicação.

O patamar de José Sócrates é diferente dos outros agentes políticos?
É e não pode ser. Os políticos têm de se habituar a ser criticados. Não podem tomar tudo a peito. Nunca o primeiro-ministro deu uma entrevista ao "Público", teve dezenas de pedidos. No caso da licenciatura, só falou comigo por minha insistência. E foi a única vez, em quatro anos e meio como primeiro-ministro. Nesse telefonema, marcamos um encontro, que desmarcou mal a notícia saiu. José Sócrates é o único primeiro-ministro - com excepção de Santana Lopes, que nem deu tempo - com quem não tive nenhum encontro.

O bloqueio arrastou-se para os Ministérios?
Teve altos e baixos. Mas nunca tinha conhecido uma situação com este tipo de dificuldade e de intensidade.

José Sócrates tem um lado totalitário na relação com os media?
O termo é demasiado forte e próprio de um regime que não é o nosso. Tolera mal as críticas e vive mal com elas.

O "Público" não se transformou numa espécie de oposição ao Governo?
Não me sinto nada líder da oposição, fiz imensos elogios a medidas deste Governo. Fiquei surpreendido quando o primeiro-ministro disse que eu era o seu melhor inimigo.

Essa guerra aberta não condicionou a forma de fazer jornalismo do "Público"?
Não é verdade. É normal que os Governos no início tenham um estado de graça, que com a passagem do tempo se vai desgastando. Os jornais reflectem isso, há mais noticiário negativo.

Nunca tivemos um primeiro-ministro tão escrutinado como este...
Se calhar também nunca tivemos um primeiro-ministro com tantos assuntos no seu passado que merecessem ser escrutinados. Motivos que a própria Justiça considerou deverem ser escrutinados, abrindo inquéritos, averiguações. Mesmo quando nenhum jornal disse haver crime. Como no caso da licenciatura, não se falou irregularidades. Eram procedimentos estranhos, pouco habituais para quem faz uma licenciatura...

Sente que há uma desconfiança pessoal de José Sócrates em relação a si?
Não lhe sei dizer. Não compreendo e não acho saudável uma relação de um primeiro-ministro com a imprensa que é determinada por ele gostar, ou não, das críticas que lhe são feitas.

O país é menos livre do que era há quatro,cinco anos?
Sim, por várias leis limitativas da liberdade de expressão: estatuto dos jornalistas, a forma como a ERC exerceu o seu mandato, o facto de durante muito tempo se sentir que os principais grupos de Comunicação Social estavam condicionados pela expectativa do que iria suceder com o quinto canal. Felizmente, não foi para a frente a pior dessas leis: a da concentração de meios. O que é objectivo é que descemos no ranking da liberdade de imprensa e isso não contando com o que se passou na TVI.

Não foi também a cultura jornalística que mudou? Há menos profundidade, menos investigação e reportagem...
De uma forma genérica os órgãos de Comunicação Social dispõem de menos meios do que no passado. Há a pressão de colocar as coisas no online. Reconheço isso no "Público". Reconheço que todos os dias cometemos erros. Há algumas características do jornalismo que, de uma forma genérica, se tornaram mais superficiais. Temos procurado contrariar isso, mas há uma tendência para alguma superficialidade e para muito sound byte. Não só por culpa dos políticos. Muitas vezes porque aquilo que se persegue é a reacção imediata. E isto não é um fenómeno só português.

O "Público é, hoje, um jornal pior do que era quando entrou?
É diferente. Tem mais espaço do que tinha para a opinião. Tem o P2 que nos obriga, diariamente, a aprofundar assuntos. Há dez anos, a média dos textos era maior. Mas os tempos mudaram. Há muitos mais canais de televisão, há a Internet, é um ambiente de comunicação completamente diferente. Temos um suplemento cultural muito mais forte. Damos menos importância à política do que quando cheguei. Mas o certo é que, se o jornal não tivesse influência nesta área, o primeiro-ministro não teria de dizer o que disse sobre nós.

O "Público" não está a acabar, então? Falava-se na hipótese da edição de papel se fazer apenas aos fins de semana...
Este ano toda a gente discutiu tudo abertamente. Não é um cenário que se coloque, seria suicidário.

E o "Público" pode mudar de mãos?
Nunca tive essa indicação por parte do accionista

A sua saída pode facilitar negócios?
Não sei. O que sei da intenção do accionista é o de que quer manter o "Público" fiel à sua matriz original de independência e com este tipo de jornalismo.

Acha que é uma coincidência o facto do dois jornalistas nomeados pelo primeiro-ministro no Congresso do PS - Manuela Moura Guedes e José Manuel Fernandes - saírem este ano dos seus lugares?
No meu caso é completamente coincidência. Tomei a decisão de sair, na minha cabeça, em Maio.

Não sente que pode ter esta leitura?
Não. Dizer que o "Público" lutou contra o primeiro-ministro é injusto, como é injusto dizer que esteve colado à agenda do Presidente. Tive muitas posições críticas em relação ao actual primeiro-ministro.

Não acha que foi imprudente ao aparecer no meio de uma iniciativa da campanha eleitoral do PSD?
Fui sempre assistir a comícios ou iniciativas de campanhas eleitorais. Esta foi a única em que fui eu o centro da notícia. Nalgumas das intervenções a que assisti até foram dadas notícias relevantes, mas só ligaram ao facto de eu lá estar.

Vai continuar na administração do Público?
Não sou administrador, sou jornalista. E vou continuar ligado ao jornal. Vou escrever opinião, numa coluna semanal, e a direcção quer que me encarregue da parte dos livros de não-ficção, escrevendo e pedindo a pessoas para escrever sobre isso. Se calhar não fico no quadro do "Público", mas isso ainda não está fechado. Fico ligado ao jornal e colaborarei com a direcção no que for preciso. Mas não fico, fisicamente, na redacção. Mas não vou ficar numa prateleira dourada. Nem sequer numa prateleira.

Sai porquê?
Por motivos pessoais e profissionais. Tenho nos últimos 20 anos sido sempre membro da direcção e 11 anos estive como director, e até mesmo administrador. E há muitas coisas no jornalismo que ainda gostaria de poder fazer. Gosto muito de ser jornalista. Vou ter mais disponibilidade para fazer coisas que, num trabalho de 16 horas por dia não posso. Como escrever.

As suas memórias?
Quem é que escreve memórias aos 52 anos? Não. Gostava de escrever, regressando a sítios onde fiz reportagens. Desenvolver e aprofundar matérias. E isto tem a ver com a saturação de um tempo que foi muito exigente. Em 20 anos nunca consegui fazer férias completas.

Parece a descrição de quem vai calçar as pantufas e ter uma vida calma.
Não sou capaz de ter uma vida calma. Senti que, ao fim destes anos todos, era possível uma substituição sem turbulência. Senti, também, que essa substituição era necessária. Os tempos exigem pessoas de uma geração mais nova. E eu não gostaria de ter de sair um dia por me dizerem que eu já não estava a dar. Preferi ser eu próprio a antecipar quando estava começar a não ter capacidade de mobilizar uma equipa a 120%. E foi uma decisão totalmente minha.

Pensa ter alguma actividade cívica ou política?
Política, não. Cívica, já tenho. Ajudo a minha mulher que é presidente dos Bombeiros de Almoçageme. O presidente da Assembleia Geral é o Correia de Campos. E não vou deixar de intervir no espaço público, vou continuar a dar aulas e conferências. O meu sonho não é ser presidente da Junta.


A nova directora

A partir do dia 1 de Novembro, o "Público" terá um novo nome no cabeçalho: Bárbara Reis, 41 anos, licenciada em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa é a nova directora. Jornalista do "Público" desde o seu começo - saiu do Expresso em 1989 - foi correspondente em Nova Iorque.

A convite das Nações Unidas foi para Timor-Leste como porta-voz do Alto Comissário da ONU, Sérgio Vieira de Mello, que acompanhou até à sua morte, em 2002, vítima de um atentado em Bagdad atribuído à Al-Qaeda.