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domingo, 25 de outubro de 2009

Correio da Manhã de 25.10.09: Entrevista a Narciso Miranda - "Ando com medo há muito tempo".


Narciso Miranda, socialista que se candidatou contra o PS em Matosinhos, diz que o processo de expulsão do partido é uma perseguição política, uma tentativa de o assassinarem politicamente, e que o ódio contra ele é tanto que anda com medo há muito tempo.

Correio da Manhã/Rádio Clube – Vai entregar o cartão de militante do PS ou deixa seguir o processo mesmo correndo o risco de ser expulso?

Narciso Miranda – Respondo-lhe a essa questão de uma forma extremamente pragmática. Eu não estou a atravessar um problema de qualquer dissidência. Eu não sou dissidente de nada. Eu sou de facto socialista. O que se passa é uma divergência política com vários contornos, designadamente contornos que no essencial assentam em questões de ordem política mas também em questões de ordem de método e em questões que têm a ver com uma coisa que é sagrada.

ARF- Qual?

- São os princípios constitucionalmente definidos aos quais toda a gente está obrigada, mesmo o PS. Portanto, não há aqui uma questão de dissidência, há aqui uma divergência que conduziu a uma condenação kafkiana e eu sou vítima de um processo kafkiano. Eu sou ameaçado de ser castigado por um delito de opinião e este processo é sustentado numa atitude inquisitória.

- Porquê?

- Repare. Eu não sei de nada. Eu só tenho conhecimento do que vem na Comunicação Social. Isto é uma questão absurda, chocante, perturbadora do ponto dos princípios, das regras, dos direitos mais elementares dos cidadãos.

ND – Não acha que violou os estatutos do PS ao candidatar-se contra o PS em Matosinhos?

- Eu volto a insistir. É um problema político de fundo. Eu não sou dissidente de nada. Mas se queremos falar dos estatutos vamos falar disso. Quem violou os estatutos em primeiro lugar não fui eu. Há uma violação grosseira dos estatutos em Matosinhos. Sabe que de acordo com os estatutos qualquer candidato a um cargo público tem de ser previamente decidido nos órgãos próprios do partido. E mais. Nos termos dos estatutos qualquer militante designado para um cargo, nos termos do artigo 19 ponto 1, tem de ser sujeito a um escrutínio secreto. E sabe uma coisa? Os candidatos à Câmara de Matosinhos pelo PS não passaram pela Comissão Política concelhia. Não houve debate, não houve votação, nem de braço no ar, muito menos secreta.

ARF – Os seus problemas com o PS começaram em 2004 quando aconteceram os incidentes na lota de Matosinhos e a morte de Sousa Franco.

- Está enganado. Eu aconselho-o a ler o relatório do processo da lota que foi elaborado por Almeida Santos, Vera Jardim e Jorge Lacão.

ARF – Exacto.

- E nesse relatório estou completamente ilibado. E na parte final quase que me pedem desculpa por proporem que eu não tinha condições políticas para me candidatar em 2005 à Câmara de Matosinhos. Mas nesse relatório há condenações propostas. É proposta a expulsão de um militante do PS.

ARF – Não é Manuel Seabra, o seu opositor?

- Não é. E sabe o que lhe aconteceu depois? É dirigente distrital do PS, é dirigente nacional do PS pela mão dessas pessoas que estão hoje à frente do PS. Neste PS há dois pesos e duas medidas. Não façam julgamentos na praça pública.

ARF – Eu não estou a julgar nada. Só lhe estou a fazer perguntas..

- Eu sei que não.

ND- Não acha que, na prática, o que lhe está a acontecer no PS é o resultado desse incidente de 2004? Não foi desconsiderado desde então?

- Eu não posso ser condenado eternamente. Não me deram nenhuma pena. E se não fui candidato em 2005 isso é eterno, para toda a vida?

ND – Nessa altura achou isso razoável?

- Politicamente tomei uma decisão assumida. Nove meses antes das Autárquicas comuniquei ao secretário-geral, a sós, num almoço a sós, que não seria candidato a nada, pararia naquele momento e não queria nada. E fico-me por aqui sobre essa conversa.

ARF – Teve essa conversa com este secretário-geral, José Sócrates?

- Foi uma conversa entre mim e José Sócrates, secretário-geral e candidato a primeiro-ministro que se realizou no dia 3 de Janeiro de 2005. Repare. As eleições Autárquicas só se realizaram nove meses depois. Nessa altura transmiti ao secretário-geral, livremente, que não seria candidato a nada, estava sereno, tinha cumprido a minha missão e nessa altura eu sei o que é que me foi dito pelo secretário-geral. Como foi uma conversa a dois fico-me por aqui. Eu si bem o que me foi dito.

ARF – E não quer dizer o quer foi dito?

- Repito mais uma vez. É por isso que digo: não me espicacem, porque eu sei bem o que me foi dito. E como me foi dito depois em duas conversas no gabinete de Sua Excelência o senhor primeiro-ministro, em que o primeiro-ministro José Sócrates teve duas longas conversas comigo e sei bem aquilo que me transmitiu e sei muito bem, tenho bem presente o que lhe transmiti. E fico-me por aqui para lhe dizer também que esta questão é também uma questão de carácter.

ARF – De carácter?

- Repito. De carácter. Exactamente.

ND – Esta questão é levantada pela distrital do Porto e não pelo secretário-geral? É isso que está a dizer?

- Eu devo perguntar qual é a opinião do líder do PS sobre estas atitudes inquisitórias, sobre estas tentativas de condenação por delito de opinião, sobre este processo kafkiano, sobre esta condenação. Condenado à morte política. Como é que isto é possível num país democrático, num Estado de Direito? Isto são atitudes de gente muito pequenina, politicamente pequeníssima, sem estatura para perceber estas questões.

ARF – Falou nos estatutos. Mas quem foi o candidato do PS que foi designado de acordo com os estatutos?

- Nenhum.

ARF – É isso que lhe estou a perguntar. Nenhum?

- Nenhum. Repito. Nenhum. Desafio o secretário-geral e o presidente do PS para avaliarem bem o que estou a dizer. Não falo de cor. Os estatutos não foram cumpridos, foram grosseiramente violados na escolha de candidatos à Câmara de Matosinhos.

ARF – Não foi só à Câmara de Matosinhos. Pelos vistos em todo o País.

- É mentira. Diga-me uma Câmara em que a Comissão Política não tomou uma decisão.

ARF – Com voto secreto?

- Exactamente. Eu não conheço nenhuma.

ARF – Acha que em Lisboa o António Costa foi escolhido por voto secreto?

- Vamos imaginar, que eu não ando a fiscalizar os actos das concelhias, que há mais uma conhecia que não cumpriu os estatutos. Que relevante tem esse facto para o que lhe estou a dizer? Os estatutos não foram cumpridos.

ARF – Em Matosinhos.

- Vou-lhe repetir. Os estatutos do PS são claros. São claros quando dizem que nenhum militante se pode candidatar contra o PS como são claros quando dizem que as candidaturas às Câmaras têm de ser apresentadas na Comissão Política concelhia e votadas por voto secreto. E isso não aconteceu em Matosinhos.

ARF – Nos anos em que foi candidato foi sempre escolhido por voto secreto?

- Sempre votação em todos os órgãos da Comissão Política concelhia, excepto quando há consenso e se vota a lista do candidato designado a presidente de Câmara. Mas nem isso aconteceu agora. Mas este problema comigo é político, estou condenado à morte política, sem direito de defesa, numa atitude inquisitória, por delito de opinião, num processo kafkiano, que aponta para uma acção de purga, no sentido de criar as condições para pensamento único e agora o absurdo.

ARF – Qual absurdo?

- Até me apetece chorar quando digo isto. Isto acontece no PS, como é que isto é possível?

ND – Continua a ser militante socialista?

- Eu sou socialista de convicções e tomara eu que toda a gente que tem responsabilidades aos diversos níveis defendesse tão convictamente a declarações de princípios do PS e os seus valores. E agora estão a fazer alianças com o PSD para manter tachos. Que vergonha. Como é que isto é possível no meu partido? Peço ao secretário-geral do meu partido que diga uma palavra sobre isto. Uma palavra que seja.

ARF – Acredita que Sócrates vá dizer alguma coisa sobre isso?

- O que é que está subjacente à sua pergunta? Que a vida política em Portugal com uma carga de hipocrisia?

ARF – O Narciso Miranda conhece-o melhor do que eu. Há bocado referiu que teve três conversas com ele.

- Mas está a querer dizer que a vida política em Portugal se faz com uma carga de hipocrisia?

ARF – Mas é verdade ou não?

- Eu não quero acreditar que isso aconteça. Nem isso me fará desistir. Porque eu sou um combatente. Já muita gente me tentou enterrar politicamente vivo. Esta é a terceira tentativa. Não vão conseguir. Eu sou um resistente. E esta questão tem contornos de uma questão de carácter. Eu vou resistir a todas as perseguições pessoais e familiares.

ND – Vai cumprir o seu mandato de vereador em Matosinhos?

- As pessoas enganam-se muito a meu respeito. Eu nunca exerci o poder para ter poder. Nunca fiquei deslumbrado pelo poder. Eu sou contra estes ódios, estas tentativas de vingança. Desde as eleições só se fala em ódio, em vingança. Meu Deus. Tanta intolerância insustentável, insuportável.

ARF – Está a falar do PS.

- Não misturem o PS instituição com isto.

ND – Mas o PS são as pessoas que o dirigem neste momento.

- Pessoas? Está a falar da massa anónima?

ND – Estou a falar dos dirigentes.

- Ah sim, mas os dirigentes passam e o PS fica.

ARF – Mas é com esta direcção do PS que isto acontece.

- Espero que não pense que tudo é chafurdice na vida política.

ARF – O PS é dirigido por José Sócrates com quem falou três vezes e é agora que tudo acontece.

- Disse que tive conversas mas não disse qual foi o tema da discussão.

ARF – Eu sei. Mas as críticas que faz ao PS. Aos dirigentes do PS.

- Sim, aos dirigentes do PS. Eu tenho grande respeito pelos militantes.

ARF – Sim. Mas acha que a direcção do PS viola um conjunto de princípios. Viola a democracia, a liberdade.

- Mas eu não falo em conceitos. Nem em princípios. Eu apontei factos.

ARF – Como é que o Narciso Miranda olha para este PS? O PS de José Sócrates?

- Os partidos têm obrigação de dar o exemplo, respeitando os princípios estabelecidos.

ARF – Mas reconhece-se neste PS?

- Reconheço-me na declaração de princípios do PS.

ARF – Mas isso é outra coisa.

- Nos valores, nas regras.

ND – Há divergências entre a prática e os princípios?

- Está a ir à questão que eu quero. O que se passa em Matosinhos é uma divergência política. Por isso é que eu peço ao secretário-geral que fale sobre isso.

ARF – Não sei se é um homem de fé. Mas acredita nisso?

- Mais importante de ser um homem de fé sou um homem de honra. A honra é para mim sagrada. E isto tem muito a ver com carácter. Mas neste momento tenho de ser cauteloso.

ARF – Este PS tem caras, tem dirigentes nacionais.

- Hão-de passar. Se Deus quiser hão-de passar.

ARF – Hão-de passar?

- Hão-de passar.

ARF – Não ajudou Sócrates a ser eleito?

- Ajudei. E do ponto de vista político está a fazer um bom trabalho. Falta olhar um pouco para dentro do PS.-

ARF – O PS existe para além de José Sócrates neste momento?

- Claro que existe. Meu Deus.

ARF – O Narciso Miranda é uma vítima da asfixia democrática?

- Eu sou vítima de uma coisa muito mais grave. Vítima de ódios pessoais e vinganças. Nestes últimos quinze dias só foram transmitidas mensagens de ódio e intolerância.

ARF – Com este PS e com este secretário-geral o seu processo vai culminar com diálogo ou coma sua expulsão?

- Eu não tenho nada a apontar ao secretário-geral.

ARF – Mas é secretário-geral.

- O secretário-geral sabe bem as três conversas que teve comigo e sabe bem as respostas que eu lhe dei. E tenho a certeza que ele não tem uma pequeníssima coisa a apontar-me. Ele sabe que enfrentou um homem com carácter, com princípios. E nas três vezes disse-lhe que ele não me conhecia bem. Que eu era um homem de carácter.

ARF – Como é os cidadãos podem olhar para este PS depois de ouvir? Com algum medo?

- Eu Matosinhos há muito medo e em outros lados também. Exactamente. Tem razão. Há medo.

ARF – Há medo, não é?

- Medo. Eu tive medo se ser perseguido. Medo do que me fizeram há cinco anos. Eu ando com medo há muito tempo. Eu sou ameaçado. A minha família é perseguida.

ARF – Não acha que isso é muito grave?

- É muito grave.